Sexta-feira, 10 de Setembro de 2010
Cultura e História
Juta, contribuição japonesa à Amazônia Ed. 86

A história da Amazônia está marcada por ciclos econômicos que determinaram não apenas as atividades de seus habitantes em seus hábitats naturais como o desenvolvimento urbano das principais cidades da região. A longa procura pelas legendárias drogas do sertão e madeiras-de-lei, mesclada pelo aprisionamento de índios, deu lugar a fazendas de gado e plantios de c ana-de-açúcar, cacau e café na região. Não tardou para que os europeus introduzissem o gado nas várzeas ao longo do Rio Amazonas, onde também passaram a plantar milho, tabaco e feijão.
Os mapas antigos da colonização marcam bem os limites das várzeas com a terra firme da região, para destacar as áreas férteis das margens do Rio Amazonas, propícias à agropecuária e ao desenvolvimento humano. Os índios tapajós, que os europeus encontraram por volta de 1.600, comprovavam a prodigalidade desses ecossistemas com sua cultura avançada e população numerosa, existindo cerca de 240 mil indivíduos nas várzeas próximas a
Santarém. Os tapajós moravam ali exatamente por se tratar de terras ricas em cálcio e fosfato, que aproveitavam para as suas plantações.
Com o advento da exploração econômica da borracha a partir de 1870, depois de passar por um período de coleta de castanha-da-amazônia e garimpagem, todas as atenções se voltaram para o látex extraído da seringueira. A Amazônia viveu então quase cinqüenta anos de fastígio e desenvolvimento até que ficou órfã da goma elástica, quando a Inglaterra a contrabandeou para a Indonésia. O extrativismo do breu, sorva, cumaru e castanha-da-amazônia foi intensificado para tentar salvar a economia combalida da região. Em vão também veio o extrativismo da madeira em tora, do pau-rosa, da balata e até do couro de animais silvestres. Foi quando os japoneses introduziram a juta na Amazônia, um sopro na economia local, mas o suficiente para gerar riquezas nas várzeas do Rio Amazonas e de seus principais tributários de águas brancas.

Em 1948, o agrônomo Felisberto Camargo, então diretor do Instituto Agronômico do Norte (IAN), enfatizou a pobreza das terras amazônicas, mas ressalvou a fertilidade das várzeas do Baixo e Médio-Amazonas para o plantio
de vegetais adaptáveis às zonas alagadas. Camargo, contudo, não esqueceu de mencionar as imensas extensões de terras roxas no trecho entre Altamira e Itaituba e nos municípios de Alenquer e Monte Alegre, na microrregião do Médio Amazonas. Na época, o agrônomo ofereceu apoio à produção de semente de juta, através do IAN, conceituando-a como uma grande alternativa econômica.
O cultivo da juta, uma das principais fibras voltada para embalagens de gêneros como açúcar, café, farinha, arroz, batata, feijão e grãos em geral, que originou-se na Índia, chegou à região como uma luz no fim do túnel graças à persistência de alguns imigrantes japoneses na fazenda experimental de Vila Amazônia, em Parintins. A juta foi introduzida no Brasil em 1930, com a chegada de uma missão japonesa, chefiada por Tsukasa Oyetsuka, que veio ao Brasil por ordem do Governo Imperial Japonês, em cumprimento de um contrato assinado em março de 1927 com o Governo do Amazonas, que lhe concedia um milhão de hectares de terras para pesquisa. Oyetsuka comprou ainda um lote de terras no encontro das águas do Paraná dos Ramos com o Rio Amazonas, na Vila Amazônia, próximo à cidade de Parintins.

Depois de várias tentativas para produção deste vegetal no Brasil, plantaram
em vão algumas sementes na fazenda experimental da Vila Amazônia, até que em outubro de 1933, quando um colono chamado Riyota Oyama conseguiu fazer germinar um pé da planta de juta adaptada às condições regionais. O cultivo da juta não apenas se espraiou pela imensa várzea do Rio Amazonas e de seus tributários de águas brancas, como tornou conhecida a Vila Amazônia, valorizando a imigração japonesa pela produção dessa fibra vegetal que deu sustentação econômica à região durante décadas, até que a indústria têxtil da juta foi praticamente derrotada pelo processo de abertura da economia brasileira, principalmente na década de 1990.
O consumo e a produção desta fibra vêm caindo vertiginosamente de ano a ano no Brasil, devido a substituição da matéria-prima das sacarias de juta pelo polipropileno, além de outros fatores de mercado, que ocasionaram o fechamento das grandes empresas nacionais de fiação e tecelagem de juta, como a Brasiljuta (AM), Fitejuta e Tecejuta (PA), Pedro Carneiro e Yolanda (BA), estando atualmente em operação apenas três, a Jauense, do grupo Camargo Correia (BA), Jutal (AM) e a Castanhal (PA), que juntas detêm 70% do mercado nacional.

Hoje, no Amazonas, os municípios de Manacapuru, Caapiranga, Anamã, Beruri, Iranduba, Itacoatiara, Manaquiri, Parintins, Careiro da Várzea, Coari e Codajás ainda cultivam juta e são responsáveis pela maior parte da produção estadual, que gira em torno de 12 mil toneladas anuais. O quilo da fibra é vendido por R$ 1,32 no mercado regional.
A juta é uma herbácea (Corchorus capsularis) da família das tiliáceas, largamente cultivada para a obtenção de fibras têxteis. A juta alcança a altura de três a quatro metros, cujo talo possui aproximadamente 20 milímetros, crescendo em climas úmidos e tropicais. As plantas florescem entre quatro a cinco meses depois de semeadas e inicia-se a colheita antes ou depois da floração. A fibra útil está entre a casca e o talo interno, com extração feita pelo processo de maceração. Suas haste e caule devem ser cortados rente ao solo com foices ou terçados, sendo depois limpos das folhas e postos em feixes dentro da água.

A temperatura quente e úmida da região amazônica favorece sua fermentação e facilita a maceração em dez dias, permitindo assim que a casca se solta das hastes sem que se rompam as fibras da parte lenhosa do talo. Depois são submetidas à nova imersão para lavagem e postas num varal para enxaguar-se, empacotando-se a fibra em seguida. As melhores qualidades de juta distinguem-se pela robustez das fibras e pela cor branca e brilhante do talo; as qualidades inferiores têm a cor dos talos mais  escuros, menor comprimento das fibras, coloração mais acinzentada e menos resistentes.
O principal componente da juta é a celulose, apresentando boa afinidade para corantes diretos.


     
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