|
Abrahim Sena Baze, historiador e diretor do Instituto Cultural Fundação Rede Amazônica e apresentador do programa Literatura em Foco, no ar há oito anos pelo Amazonsat, é hoje uma referência nacional de literatura amazônica. O historiador criou cinco museus e dois memoriais em Manaus, tendo publicado 17 livros, dois dos quais em Portugal. Abrahim Sena Baze é uma das figuras mais importantes e atuais da intectualidade amazonense.
Amazon View – O senhor, que trabalhou para o resgate histórico da Beneficente Portuguesa de Manaus, pode falar qual a importância desta instituição?
Abrahim Baze – De dez anos para cá, eu venho trabalhando para resgatar a memória portuguesa no Amazonas. Fiz o livro da instituição intitulado Beneficente Portuguesa, 125 Anos de História, que hoje é adotado na Universidade Estadual do Amazonas e na Uninilton Lins. Fiz também o livro do Luso Sporting Club e os museus deste e da Beneficente. Depois, por necessidade do próprio Luso, realizei a idéia genial do atual presidente da Beneficente Portuguesa, Alfredo Monteiro Vieira, criando o Centro Cultural Luso Brasileiro, onde reuni o Museu da Beneficente e o do Luso. O primeiro tem uma importância muito grande, com duas telas pintadas por Branco e Silva, datada de 1930, que foi o maior artista plástico que o Amazonas teve em seu período. Este meseu guarda a pedra fundamental da Beneficente (1874), que nunca foi enterrada, além de moedas de ouro, prata e bronze, coroas portuguesas e a urna que elegeu sua primeira diretoria. Tem também a pia batismal em porcelana inglesa em que foi batizada a primeira criança que nasceu na Beneficente, em 1873. Posteriormente, fiz o Museu do Luso, que também tem a sua história e, recentemente, lancei o livro sobre o clube. A colônia portuguesa tem me dado a oportunidade de fazer muitas pesquisas interessantes, a exemplo da maçonaria que pesquisei para escrever sobre o centenário de uma loja maçônica eminentemente portuguesa, a Aurora Lusitana, aqui em Manaus, que até a década de 1950 só aceitava na ordem quem fosse português nato, exigência que mudou a partir de 1970, quando passou a receber os filhos dos imigrantes. Dez anos depois, a Aurora Lusitana abriu-se definitivamente a todos os brasileiros, até mesmo por conta da diminuição da imigração lusitana. A Beneficente de Belém é mais antiga, mas foi criada no mesmo estilo arquitetônico.
Amazon View – O que motivou a criação das Beneficentes, organização que perdura até hoje com grande e imponente acervo arquitetônico?
Abrahim Baze – O português é extremamente generoso, o que faz parte da alma lusitana. Partindo desta característica, duas instituições foram criadas pelos portugueses no Brasil: as santas casas de misericórdia e as beneficentes portuguesas. Quando os portugueses vieram para o Brasil, havia ausência da presença da medicina no país, principalmente na Amazônia. Imagine, a Beneficente foi fundada em 1873, 22 anos após a criação da Província do Amazonas. Aqui não tinha nada, só era mato quando eles chegaram no Brasil. Muitos deles vieram para a Amazônia, que era muito carente de médicos, o que motivou a criação de um hospital, porque a região, naquele período, era cercada de doenças, como a malaria, febre amarela e outras endemias. A partir daí, a idéia era criar hospitais que pudessem dar apoio aos imigrantes lusitanos vingou. O mais interessante, porém, é que embora esses hospitais fossem criados para atender a imigração portugueses, eles começaram a dar assistência aos brasileiros. No caso do Amazonas, por exemplo, a história registra essa evolução na maior enchente que a região teve, em 1953, quando a Beneficente cedeu 100 leitos para que os interioranos doentes que fugiam das águas fossem tratados no hospital sem nada pagar nada. Embora o hospital tenha sido criado basicamente para o atendimento de portugueses, ele serve até hoje para toda a sociedade regional. No início, na construção da Beneficente, os padeiros portugueses davam um dia de seu trabalho para que o pão chegasse ao doente e tivesse o café-da-manhã; os pedreiros trabalhavam nos fins-de-semana para as obras do hospital, que nasceu no Largo da Uruguaiana, onde se localiza atualmente o Colégio Dom Bosco e parte do campo do Colégio Militar, num terreno de 10 mil metros quadrados doado pela Câmara Municipal de Manaus. Redobrando o esforço, os portugueses construíram o monumental prédio da Beneficente à Rua Joaquim Nabuco, antiga Correa de Miranda.
Amazon View – Há pessoas que tripudiam da colonização portuguesa, mas pelo que se vê e se estuda, os portugueses contribuiram de muitas formas para o desenvolvimento da Amazônia, inclusive para o crescimento urbano das cidades.
Abrahim Baze – Sem dúvida. A mão do profissional português na arquitetura do Brasil, especialmente na Amazônia, foi fundamental. A presença dos portugueses foi colonizadora, mas você há de convir, que todo país que está sendo colonizado fica submisso e acaba sendo também explorado. O Brasil não foi diferente e a Amazônia não ficou de fora disso, o que fazia parte do sistema colonizador, que quer dizer o saque da matéria-prima (madeira, ouro, especiarias, etc.) da região colonizada, como aconteceu em todo mundo. Precisamos contextualizar esse fato e ter a visão do bem e do mal daquilo que pôde causar malefício, possa, ao mesmo tempo, causar beneficio. Houve exploração do colonizador português? Sim, mas, diferentemente dos ingleses e franceses que vendiam as suas concessões (bonde, luz, telefone, portos, navegação, etc.) quando se retiraram da Amazônia, os portugueses deixaram os próprios ossos aqui, ou, se voltaram para Portugal no fim da vida, legaram a seus herdeiros que aqui permaneceram o patrimônio amealhado ao longo dos anos na região. Na história da Beneficente você encontra o exemplo de um português que, ao viajar de volta para Portugal, deixou 17 imóveis para a entidade portuguesa. Existem outros exemplos, como o do imigrante José Cruz, que presidiu a Beneficente Portuguesa durante 33 anos e que teve que tirar dinheiro do próprio bolso para pagar as contas da entidade.
Amazon View – Como historiador, o senhor acha que até mesmo as maldades praticadas em certas épocas têm que ser entendidas contextualmente?
Abrahim Baze – Eu diria que não eram maldades, diria que fazia parte de um contexto da época. Tudo deve ser entendido como se via e se sentia naquele período. O Brasil, por exemplo, levou 350 anos mantendo o processo escravocrata. Os escravos eram só aqueles negros vindos da África? Quem eram os traficantes, os portugueses, os brasileiros? Pensando então na América do Norte, não foram os ingleses que levavam os negros para lá?
Amazon View – Parece que a presença do negro foi pouco sentida aqui no Amazonas, pelo menos muito menos do que no Pará e no Amapá. Na calha norte do Rio Amazonas, vimos o negro vindo do Amapá ate as fronteiras do Amazonas, em Faro e no Rio Trombetas. Existe algum quilombo aqui no Estado?
Abrahim Baze – Sim, existe, inclusive tem uma pesquisadora da Fundação Fiocruz que está fazendo um trabalho muito bonito sobre isso, mas quero ressaltar que a Amazônia em determinado período recebeu mais de 10 mil escravos entrados pelo Maranhão, em trânsito por Belém e distribuídos em toda a Amazônia. Antes que o Brasil abolisse a escravatura pela Lei Áurea, Fortaleza (Ceará), no dia 25 de março de 1884 libertou os escravos, marca que a Província do Amazonas alcançou no dia 10 de julho do mesmo ano, razão pela qual denominou-se a Rua 10 de Julho, data local da abolição da escravatura. Na alforria cearense, aquele Estado possuía cerca de 35 mil escravos, enquanto que no Amazonas só existiam 1501 pessoas na escravidão. Aí é necessário contextualizar a presença da maçonaria nesse processo, pois os maçons trabalhavam para que a escravidão fosse extinta, inclusive comprando e dando liberdade a escravos. O interessante é que o governo amazonense daquele período dava dinheiro para que a maçonaria pudesse comprar escravos e libertá-los, tema, inclusive, de um livro que escrevi denominado Escravidão – Amazonas e Maçonaria escreveram sua história.
Amazon View – Quais são as figuras mais importantes da história do Amazonas?
Abrahim Baze – O Amazonas tem muitas figuras importantes no campo político, como Eduardo Ribeiro, que escreveu um período muito bonito da história, porque um homem negro e pobre como ele, que nasceu no Maranhão, uma província pobre naquele período, acabou chegando a governar este Estado e deixou obras que até hoje são perenes. Outros homens de outras épocas também foram importantes, como Álvaro Maia, Plínio Ramos Coelho e tantos outros. Enfim, se me perguntarem quem foram os homens ilustres que aqui trabalharam, especialmente portugueses, obrigatoriamente teria que se citar o comendador Joaquim Gonçalves de Araújo, pois ele foi e é a maior referência da imigração portuguesa no Amazonas e que contribuiu para um período muito fértil e muito bonito da economia do Estado.
Amazon View – Culturalmente, o Amazonas ganhou uma transformação nos últimos anos com o desenvolvimento do folclore do boi-bumbá de Parintins. Na sua opinião, o Amazonas avançou ou regrediu culturalmente com esse fato?
Abrahim Baze – Avançou, e hoje, inclusive, temos a referência do Estado do Pará que tudo faz por cultura. O paraense já tinha a sua identidade cultural com o próprio carimbó e com a gastronomia, além de seu rico folclore, razão pela qual o Amazonas precisava resgatar ou construir a sua identidade cultural que teve no boi Garantido e Caprichoso a grande referência que está aí, saindo para outros Estados e países. Creio que evoluímos com a presença do boi-bumbá, embora alguns folcloristas e historiadores digam que este folclore perdeu sua essência a partir do momento em que ele começou a investir no carnavalesco, nas alegorias e naquilo que se usa no carnaval, mas acredito que o boi tem sua identidade, sendo uma referência da nossa cultura.
Amazon View – Quanto à Fundação Rede Amazônica, esse trabalho que é feito aqui, realmente está atingido o seu objetivo de resgatar a cultura e a memória regional?
Abrahim Baze – Não tenha dúvida, a Fundação Rede Amazônica, hoje, dá uma contribuição importante no contexto da Amazônia, porque ela não existe só em Manaus, mas em toda a Amazônia (Roraima, Rondônia, Amapá e Acre). A Fundação Rede Amazônica hoje mantém 700 bolsas de estudo do pré-primário ao doutorado e já formou todos os profissionais de sua mantenedora, propiciando a essas pessoas a conquista de um curso superior. Então, acredito que a fundação tem, sim, participação importante nesse contexto.
Amazon View – Phellipe Daou, proprietário da Rede Amazônica, é uma figura que já faz parte do elenco dos grandes homens que o Amazonas gerou. O senhor acredita que esse trabalho que ele está fazendo, levando a região tão longe através do Amazonsat, tem dado destaque à cultura regional?
Abrahim Baze – O Phellipe Daou é um homem amazônida por natureza, reconhecido no Brasil e no mundo. O Amazonsat é uma referência importantíssima da Amazônia, porque a emissora tem o princípio de mostrar a região, como mostra a revista Amazon View. O jornalista Apolonildo Britto foi um visionário, estando ali no Amapá e de repente foi para Belém e hoje está em Manaus com essa importante revista, o quer dizer que a revista está sempre interligada com as principais capitais da Amazônia. Se a pessoa entra num avião, encontra a Amazon View para a leitura de bordo. O Phellipe Daou é também um visionário como o Apolonildo Britto e faz um trabalho para a eternidade. Tenho a plena convicção que o Amazonsat será, com toda certeza, a televisão do futuro. A emissora integra muito bem a região ao mundo todo. É a cara e voz da Amazônia, que é um slogan que ficou. Gostaria de dizer que a revista Amazon View é hoje uma referência nacional, especialmente na Amazônia.
|