Domingo, 05 de Setembro de 2010
Lendas
Lenda do Fogo Ed.85

A cultura universal proclama a terra, o ar, o fogo e a água como elementos básicos da criação do mundo. Dentre estes, o fogo é considerado o mais intenso e também responsável pelas transmutações, transformações, transições, mudanças, progresso e determinação do homem. A guerra, vingança, luxúria e paixão são outros atributos deste elemento.

Desde o alvorecer da humanidade, o fogo nutre no homem um misto de medo e admiração, fruto do seu incipiente conhecimento sobre os elementos naturais como daquele disco fulgurante que se ergue diariamente no céu (sol), irradiando luz e calor. Também era difícil compreender o corisco dos raios durante as tempestades ou a lava incandescente dos vulcões que incendiavam florestas e provocavam um mar de fogo. Mesmo sem explicações, o homem logo percebeu que os fenômenos da natureza poderiam ser aliados para sua sobrevivência.

Descobriu o fogo e aprendeu como domesticá-lo, o que mudou completamente a vida na Terra, provocando alterações físicas, demográficas e sociais nas primeiras comunidades. O fogo deu ao homem pré-histórico o poder de iluminar a escuridão, dominar animais, cozer alimentos, sobreviver aos rigores do tempo e desenvolver técnicas para fazer cerâmica e construir edificações.

Ao dominar o fogo, o homem se distinguiu dos demais animais e passou a compartir do poder divino. O elementar tornou-se então centro da vida humana e passou a ser adorado e cultuado por muitas civilizações, inclusive como deuses responsáveis pela manutenção do fogo eterno. Surgiram figuras míticas que procuravam explicar a relação do homem com o fogo. Em diversas tradições míticas, o herói rouba o fogo dos deuses, como na lenda grega de Prometeu, titã que furtou uma centelha de fogo do Olimpo para dá-la aos mortais. 

Grécia e Roma cultuavam os mesmos deuses do fogo com nomes diferentes: Hefesto ou Vulcano era o deus do fogo; Héstia, irmã de Zeus, era a divindade do elemento que mantinha a sua chama sagrada acesa, eternamente. Ela também foi adorada em Roma como Vesta, cujo templo mantinha vivo o fogo sagrado, onde jovens sacerdotisas chamadas vestais tinham a tarefa de manter acesa a chama-símbolo da perenidade do Império Romano. 

Na Idade Média, quando o poder religioso confundia-se com o poder real, época que mistura o divino ao profano, o real ao imaginário, o medo à adoração, o fogo cercou-se de simbolismo purificador, prática utilizada pela Santa Inquisição para perseguir, torturar e matar inimigos da Igreja Católica, acusados de heresia e bruxaria, a exemplo de Joana D’Arc, heroína francesa e de tantas outras personalidades ilustres queimadas por causa de divergências com o poder dominante.

Segundo os carnavalescos Renato Lage e Márcia Lávia, com tantas utilidades e peculiaridades, logo o inconsciente popular tratou de dar um ressignificação ao fenômeno fogo. Viajou na mente dos índios e sertanejos em lendas como a do Boitatá, uma grande cobra de fogo que se alimentava dos olhos de animais mortos, e da Mula-sem-cabeça, animal que expelia fogo pela cabeça.

O imaginário indígena brasileiro, aliás, foi pródigo em lendas para explicar a origem do fogo. Os caingangues, índios do Sul e Sudeste do Brasil, que pertencem à família lingüística jê, do tronco macro-jê, precisavam do fogo para cozinhar e se aquecer, mas não sabiam como obtê-lo. Somente Minarã conhecia o segredo, mas não ensinava a ninguém. Ele era um índio de raça estranha, que mantinha o fogo em sua lareira, zelado por sua filha Iaravi, que o guardava como a um tesouro. Fiietó, um índio jovem e inteligente, resolveu roubar o fogo e trazê-lo para a sua tribo.
 
Sua estratégia foi transformar-se em uma gralha branca e chegar até a cabana de Minarã, onde o fogo ardia na lareira. Quando Iaravi banhava-se no rio, Fiietó atirou-se na água e se deixou levar pela correnteza na direção da formosa índia. Ela, penalizada, vendo a pobre gralha encharcada, a recolheu, levando-a para junto da lareira. Não tardou para que as penas da ave secassem e a gralha pegasse uma brasa com o bico e voasse fugindo. O tição em brasa caiu de seu bico e provocou um grande incêndio, propiciando, assim, que todas as tribos vizinhas pudessem ter o fogo.


Depois do incêndio, conta a lenda, extensas áreas de florestas viraram os campos que atualmente se conhece como os Campos Gerais, os Campos de Palmas e os Campos de Guarapuava, por exemplo.
Segundo lenda contada por Curt Nimuendajú Unkel em Mitos dos índios Tembé do Pará e Maranhão, no início dos tempos o urubu-rei era o dono do fogo, razão pela qual os índios tembés secavam carne num jirau ao sol, quando então decidiram roubar o fogo do urubu-rei. Mataram uma anta e a deixaram estendida no chão até o bicho ficar podre, agitado de vermes.

O urubu-rei, vendo a carniça lá embaixo, desceu acompanhado de seus parentes para melhor se banquetear, assumindo a forma de gente. Como trazia um tição aceso, fez com ele uma grande fogueira e assaram a carniça podre. Sentindo a presença dos tembés que estavam escondidos, à espreita, os urubus bateram asas e levaram o fogo consigo para um lugar seguro, mas voltaram à carniça e fizeram seu fogo, desta vez mais perto da tocaia preparada pelos índios. 

Quando os urubus viraram homens novamente e se puseram a assar os vermes, os índios deram um pulo para frente, os bichos ficaram alvoroçados, correram para suas vestes de penas e começaram a vestir-se atabalhoadamente. Um velho pajé tembé aproveitou a confusão, pegou um tição aceso e fugiu, enquanto os urubus juntaram o resto do fogo e voaram, levando-o consigo. Assim os tembés obtiveram o fogo.
Uma lenda taulipangue dá conta que Palenosamó, velha feiticeira, vivia sozinha no meio da floresta, numa clareira, longe da tribo, porque não gostava dos outros índios.

Os homens ainda não conheciam o fogo naquele tempo e seus alimentos eram secos ao sol e tinham gosto ruim. A velha índia fazia o mesmo, mas certo dia saiu de casa para apanhar alguns ramos, juntou-os e cuspiu em cima deles e, surpreendentemente, os galhos pegaram fogo. A feiticeira passou a cozinhar seus alimentos, mas resguardou o segredo de todos.

Numa tarde, uma jovem índia entrou na floresta e foi andando até encontrar a casa da anciã. Subiu numa árvore e ficou observando a casa até que a velha apareceu e juntou um pouco de lenha e fez uma fogueira. Espantada, a moça desceu da árvore e, sem ser percebida, correu até a taba, onde contou quase sem fôlego o que vira.
Satisfeitos com a notícia, os índios foram à casa de Palenosamó e disseram:
– Sabemos que tens fogo. Dá-nos! A feiticeira ria-se, negando-se a atendê-los.
– Se não nos deres o fogo, nós te obrigaremos!

Os índios a agarram e a levaram até a tribo. Amarram-na num poste no meio da taba e juntaram em torno dela bastante lenha. Em seguida, apertaram o ventre da velha feiticeira até que esta não agüentou e cuspiu sobre a madeira, ateando um fogo vivo e forte, que queimou a terra em baixo e a transformou numa pedra. Esta pedra, quando batida em outra igual, solta faíscas. Foi deste modo que os índios aprenderam a fazer fogueiras e não tiveram mais de comer os alimentos crus.
Os xavantes contam que, no principio, a onça detinha o fogo.

Um dia, dois indiozinhos foram procurar filhotes de arara na mata, quando o mais novo subiu numa árvore e jogou uma pedra no outro. Este ficou bravo, retirou a escada da árvore e deixou o menor lá em cima. A onça aproximou-se, desceu o garoto e levou ele para sua toca, onde assou carne de queixada e o curumim viu pela primeira vez o fogo. Depois, o garotinho fugiu da toca da onça levando um pouco de carvão, como prova do fogo.

Contou a todos que a onça era a dona do fogo e a comunidade combinou de roubá-lo dela. Vários xavantes se transformaram em animais para poder cumprir a empreitada, cabendo à anta ser a primeira a roubar o fogo, seguida do cervo, que passou para o veado-campeiro, que passou para o veado-mateiro, que passou para a seriema, que passou para a capivara. A capivara deu um pulo na água, mas antes um passarinho passou e pegou o fogo, levando-o para a aldeia. Tendo fogo e mais caça para comer, o povo xavante começou a se desenvolver, nascendo mais crianças.

Os índios cuicurus ainda não tinham fogo. Canaça, criatura intermediária entre a natureza divina e humana, resolveu então procurá-lo, levando um vaga-lume na mão fechada. Depois de longa caminhada, cansado, resolveu dormir, mas não sem antes abrir a mão, tirar o vaga-lume e pô-lo no chão. Como sentia frio, Canaça se acocorou para se aquentar à luz do vaga-lume. Ao chegar ao outro lado da lagoa, ele desenhou no barro uma arraia, mas como estava escuro não viu o próprio desenho e foi por ela ferrada. Canaça pediu, então, o fogo à saracura, que lhe acompanhava, para poder enxergar. Esta lhe disse que só o ugúvu-cuengo (urubu-rei) é que tinha fogo.
– Como é esse ugúvu-cuengo?
– É um tipo de uruágui (urubu comum), muito grande, com duas cabeças e difícil de ser encontrado. Vive em lugar bem alto e só desce para comer.

– Como é que a gente faz para segurar ele?
– O único jeito é matar um veado grande, esconder-se embaixo da unha dele até o bicho apodrecer. Quando o urubu-rei chegar, segure a perna dele e só solte quando ele entregar o fogo.

Canaça desenhou um veado morto, escondeu-se na unha da carniça e ficou esperando o dono do fogo se aproximar. Quando este começou a comer a carne podre, agarrou-o pelo pé. O urubu-rei ficou um pouquinho zangado, mas chamou um passarinho preto e mandou buscar o fogo lá do céu. O passarinho trouxe uma brasa, assoprou e acendeu o fogo. Na mesma hora Canaça soltou o urubu-rei e, quando o fogo já estava aceso, vieram os sapos, sopraram água nele e fugiram para o rio. Mas o fogo não chegou a apagar e o urubu-rei disse então:
– Canaça, quando o fogo apagar, quebra uma flecha em pedaços, racha no meio, amarra bem uma sobre a outra e afixa no chão.
Feito isto, Canaça friccionou uma varinha de urucum até o fogo surgir. Para levá-lo ao outro lado do rio, o índio chamou as cobras, mas só Itóto, muito ligeira, conseguiu chegar à outra margem. Canaça também atravessou a água e lá no outro lado deu bebida, mingau e beiju para Itóto, celebrando a conquista do fogo.

Os parintintins, nação indígena nunca tinham visto fogo, obtinham comida quente colocando a caça e a pesca num moquém ao sol. Pediram então a Maíra, um semi-deus, que lhes dessem um pedaço do sol. Prometendo atendê-los, a divindade entrou na floresta e fez um ardil para enganar os outros. Deitou-se, fingindo-se morto. Vendo-o, a mosca varejeira voou em sua direção; cheirou-o e partiu a toda pressa em busca do urubu-rei, como ele desejava.

O pássaro, que naquele tempo era o dono do fogo, veio depressa para regalar o estômago com o índio “morto”. Pegou-o e pôs fogo embaixo. Tão contente estava o urubu-rei que Maíra aproveitou-se do seu descuido para roubar o fogo e fugir. Percebendo o que acontecera, a ave reuniu sua gente e saiu em perseguição ao índio. Este, ouvindo o barulho dos perseguidores, ocultou-se num tronco oco, tendo os urubus entrado atrás dele. Maíra escapou pelo outro lado e tornou a esconder-se, desta feita numa moita de taquara, conseguindo o intento.

Chegando à beira de um rio, chamou a cobra e pôs-lhe fogo nas costas, para que ela o levasse à sua gente, que estava na outra margem. Inteiramente queimada, a cobra morreu. O índio chamou o camarão e, tomando o fogo, fez a mesma coisa. O camarão ficou muito vermelho e também morreu. Colocou ainda o fogo nas costas do caranguejo e o infeliz teve a sorte dos seus companheiros. Maíra já estava começando a ficar preocupado.

Tentou uma vez mais com a saracura, e a pobre ave ficou como os outros. Quando Maíra já não sabia o que fazer, apareceu o sapo cururu, que tem o costume de engolir brasas, julgando que são vaga-lumes. Engoliu o fogo e carregou-o até onde estavam os parintintins. Em seguida, Maíra quis pular para junto dos seus amigos, mas achou o rio muito largo e gritou para que o curso d’água ficasse estreito. Saltou-o e foi-se com os índios da sua tribo. Como recompensa ao sapo cururu por ter levado o fogo, Maíra o nomeou pajé dos parintintins.


     
Rua Pedro Álvares Cabral, 161 - Conj. Dom Pedro | Fone/Fax (92) 3657-0120
Copyright 2009 - Todos os direitos reservados