Domingo, 05 de Setembro de 2010
Lendas
Reino das Encatarias - Ed 79
 

A relação do caboclo com o mundo aquático da Amazônia é determinante em tudo. Sua interação permanente com as águas gerou a chamada civilização ribeirinha, na qual os rios, lagos, igarapés e igapós são fontes da vida, da morte e do imaginário regional. São caminhos, referências e habitat naturais dos que vivem ou viveram, durante séculos, às margens do grande rio Amazonas e de seus inumeráveis tributários, herança cultural que receberam dos seus ancestrais indígenas e portugueses. A relação do caboclo com os rios não é apenas uma conjunção física e conjuntural, vai muito além do campo material, é sensível e
 presente, pois suas histórias nunca são contadas no tempo passado, são presentes como se estivessem acontecendo naquele momento e ali mesmo.

A cultura amazônica está repleta de símbolos preservados na memória coletiva que se destaca pela realidade dos homens, mulheres e crianças ribeirinhas que se estabelecem pelo olhar para a natureza que os cerca diante do mundo poeticamente natural. O pensador Walter Benjamim, autor da obra “Magia e teoria, arte e política”, afirma que a natureza regional influencia a cultura buscando a compreensão imaginativa do caboclo para explicar a realidade que o cerca. Deste modo, o mito é um elemento fundamental para compreender a cultura amazônica decorrente do imaginário social. No mito, o ribeirinho materializa a vida da própria natureza, ele cria seu mundo diante do mundo físico que já encontrou construído, pois passa a ter uma realidade maior do que o real, um olhar especial encontrado no mundo vivido pelo homem à margem dos grandes rios brasileiros, ganhando uma dinâmica rica, resultante de uma particular relação entre o homem e a natureza, sendo ainda capaz de transmitir ensinamentos para futuras gerações.

A beleza misteriosa dos nossos lagos e rios, sobretudo daqueles que ficam entre as grandes florestas do Norte, criou uma visão arrebatadora e sobrevive em nossa tradição como imagem bela, interessante e inspiradora. Os colonizadores também foram vencidos pelas águas da região, assimilando a cultura ribeirinha milenar, mas incorporando à descendência cabocla lembranças do além-mar, formadas no novo ambiente cultural. Assim nasceu os encantados e tantas outras lendas que hoje compõem a legião do imaginário da cultura amazônica.

Os encantados, aliás, estão em todos os lugares, como afirma o poeta e escritor paraense João de Jesus Paes Loureiro – estão entre os índios e caboclos, entre o céu e a terra, nas selvas, nos campos, no fundo das águas...
O professor da UFPa e pesquisador do CNPq,  Raymundo Heraldo Maués, admite que, na chamada “viagem ao mundo dos espíritos”, o fenômeno dos encantados ou caruanas faz parte de um sistema de crenças e práticas estudadas por folcloristas, jornalistas, ficcionistas, antropólogos e outros aficcionados desde o século XIX. O assunto tem sido tratado por um número considerável de estudiosos, entre os quais se destacam Jorge Hurley, Antônio de Pádua Carvalho, F. J. de Santa-Anna Nery e José Veríssimo. Mais recentemente, destaca-se o estudioso, historiador e folclorista Vicente Salles, inclusive antropólogos, como Eduardo Galvão, Charles Wagley, Napoleão Figueiredo e Anaíza Vergolino, Chester Gabriel e outros.
Segundo Malinowski: “Não existem povos, por mais primitivos que sejam, sem religião nem magia. Assim como não existem, diga-se de passagem, quaisquer raças selvagens que não possuam atitude científica ou ciência, embora esta falha lhes seja freqüentemente imputada. Em todas as sociedades primitivas, estudadas por observadores competentes e de confiança, foram detectados dois domínios perfeitamente distintos, o Sagrado e o Profano; por outras palavras, o domínio da Magia e da Religião e o da Ciência”

Contaminado pela religião tradicional índígena, o xamanismo, a crença fundamental da pajelança cabocla reside na figura do encantado. Apesar de algumas variações nas crenças de região para região da Amazônia, a fé nos encantados se refere a seres que são normalmente invisíveis às pessoas comuns e que habitam “no fundo”, isto é, numa região abaixo da superfície terrestre, subterrânea ou subaquática, conhecida como o “encante”. Segundo estudo de Raymundo Heraldo Maués, as idéias sobre os encantados claramente derivam de lendas e concepções de origem européia, que ainda hoje persistem no repertório ocidental das histórias infantis e que têm inspirado várias obras de arte em diversos campos. Maués afirma que também foram influenciadas por concepções de origem indígena, de lugares situados “no fundo”, ou abaixo da superfície terrestre, e provavelmente também por noções sobre entidades de origem africana, como os orixás, que não se confundem com os espíritos dos mortos.
Ele cita dois exemplos de encantados muito populares na Amazônia: Cobra Norato e o Rei Sebastião, um encantado que habita em várias praias de ilhas existentes ao longo do litoral entre Belém e São Luís, que é entidade comum aos cultos de pajelança e de origem africana tanto no Pará como no Maranhão.

A lenda de Cobra Norato é narrada em diferentes versões, em várias regiões da Amazônia, sendo talvez em parte de origem indígena. As versões colhidas na região do Salgado, costa atlântica do Pará, dizem que uma mulher deu à luz a gêmeos de ambos os sexos, que foram chamados de Maria Caninana e Norato (Honorato) Antônio. Logo ao nascer, as crianças se transformaram em cobras e deslizaram, rapidamente, para o rio, onde passaram a viver. Cresceram e se transformaram em cobras-grandes. Já adultos, Maria Caninana enamorou-se de uma outra cobra encantada, do sexo masculino, com quem desejava casar-se. Seu irmão se opunha, pois isso impediria que os dois se desencantassem. Como a irmã não lhe desse ouvidos, ele entrou em conflito com ela e seu noivo, travando-se entre eles uma grande luta, durante a qual Norato matou os dois. Tudo isso ele participava à sua mãe, a quem costumava ainda visitar, em forma humana. Uma outra versão, não encontrada na região do Salgado, mas narrada no Baixo Amazonas, dá conta que, muito tempo depois, Cobra Norato encontrou quem o desencantasse: um soldado em Óbidos, que não se intimidou com o tamanho daquela enorme cobra e a feriu, até provocar sangue, com uma faca virgem.
Quanto ao Rei Sebastião, como encantado, é um personagem cujas origens remontam a Portugal. Trata-se do mesmo rei Dom Sebastião que morreu durante a batalha de Acácer-Quibir, na segunda metade do século XVI, em luta contra os mouros do norte da África. Segundo a lenda, Dom Sebastião não morrera, mas se encantara para retornar a Portugal e libertar seu povo do domínio estrangeiro, mito que tomou caráter messiânico, inclusive no Brasil, como o episódio de Canudos, no Nordeste.

Na região do Salgado se fala em três “moradas” do Rei Sebastião. A primeira delas, certamente a mais conhecida, é a ilha de Maiandeua, no município de Maracanã, onde se situam a praia e o lago da princesa, que é a filha do rei. A segunda, menos famosa, mas não menos bela, é a ilha de Fortaleza, no município de São João de Pirabas, de acesso ainda mais difícil, onde existe a “Pedra do Rei Sabá” e o “Coração da Princesa”, uma pedra em forma de coração e muito visitada. A pedra do Rei Sabá também é objeto de culto dos adeptos do catolicismo, da pajelança e das religiões de origem africana. Ela está sempre cheia de velas, fitas do tipo das que se colocam em santos, e oferendas de todo tipo, sobretudo bebidas alcoólicas e tabaco.

As ilhas de Fortaleza e Maiandeua são consideradas “encantadas”, onde a idéia messiânica de um possível desencantamento do Rei Sebastião estão sempre presentes, expressas em lendas ali contadas em várias versões. Refere-se à aparição da filha do rei a um pescador, na ilha de Maiandeua, pedindo que ele a desencante. Se ele o fizer, terá como recompensa casar com a princesa. Além disso, se isso acontecer, as cidades dos encantados aflorarão à superfície, enquanto todas as outras cidades irão para o fundo, estabelecendo-se, a partir daí, o governo do Rei Sebastião sobre o mundo. Para desencantá-la, ele terá, como no caso do desencantamento de Cobra Norato, de cortar o couro da cobra em que a princesa se transforma, com uma faca virgem, até provocar sangue. Ocorre que, em todas as versões conhecidas, o pescador sempre falha, sentindo-se apavorado com a presença daquela enorme cobra. Ao fugir, ainda ouve um lamento: “Ah, ingrato, redobraste meus encantes!”.
Na região do Salgado, o Rei Sebastião é visto como o rei de todos os encantados. Há uma outra lenda, também narrada em várias versões, que trata de uma disputa entre os dois grandes encantados, o Rei Sebastião e Cobra Norato, em que este foi derrotado e, em algumas versões, morto pelo rei. A partir desse episódio é que o Rei Sebastião passou a ser o mais importante de todos os encantados da região. Segundo relatos, em muitas sessões de pajelança o Rei Sebastião se incorpora nos pajés mais notáveis, vindo com o objetivo de curar as doenças de seus pacientes.

Afora esses encantados famosos, a idéia de entidades sobrenaturais como “bichos do fundo”, a referência dos encantados da mata (Anhangá e Curupira) está sempre presente, pois trata-se de seres perigosos, contudo, menos importante que os encantados dos rios, da grande baía do Marajó e do oceano Atlântico, o mundo das águas.
Os “bichos do fundo”, quando se manifestam nos rios, lagos e igarapés sob a forma de cobras, peixes, botos e jacarés, são mais perigosos e aparecem sob forma humana, nos manguezais ou nas praias são chamados de “oiaras”; neste caso freqüentemente aparecem como se fossem pessoas conhecidas, amigos ou parentes, e desejam levar suas vítimas para o fundo, onde poderão se tornar outros encantados.

O boto encantado, por exemplo, é capaz de transformar-se num belo rapaz, que seduz as mulheres, mantendo relações sexuais com elas, engravidando-as e gerando “filhos do boto”. Para alguns, o boto age como uma espécie de vampiro, sugando o sangue da mulher durante as relações sexuais, o que pode levá-la à morte, caso o boto não seja morto antes, pelos parentes ou amigos da vítima, ou a mulher não seja de alguma forma afastada dessa influência maléfica. Por isso os botos são especialmente temidos pelas mulheres quando estão menstruadas, já que o sangue da menstruação exerce atração sobre eles.

Segundo Paes Loureiro, outro encantado, “a Iara – Mãe d’Água – vive nas encantarias do fundo dos rios. Ela atrai os moços e os fascina, mostrando-lhes seu rosto belíssimo à flor das águas e deixando submersa a cauda de peixe. Para seduzi-los, faz promessas de todos os gêneros. Para aumentar o estado de encantamento, canta belas melodias com voz maviosa. Convida-os a irem com ela para o fundo das águas do rio – onde se localiza a encantaria – sob a promessa de uma eterna bem-aventurança em seu palácio, onde a vida é uma felicidade sem fim. Quem tiver visto seu rosto uma única vez jamais poderá esquecê-lo. Pode até, no primeiro momento, resistir-lhe aos encantos por medo ou precaução. No entanto, mais cedo ou mais tarde acabará por se atirar no rio em sua busca, levado pelo desejo ardoroso de juntar seu corpo ao dela”.

No bojo das crendices, lendas e mitos das encantarias, entre outras razões, a suprema sabedoria do amazônida, que soube usar a lenda do boto para aplacar a ira de maridos traídos e pais enganados, quando suas mulheres ou filhas engravidam fora do domínio doméstico, também justifica na sedução da Iara a fuga ou o desaparecimento de seus entes queridos.

     
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