Domingo, 05 de Setembro de 2010
Lendas
Mula sem Cabeça Ed. 82


O pensamento aristotélico diz que o homem é como uma tábua rasa, um espaço vazio que cada indivíduo preenche com a sua própria experiência de vida. O empirista John Locke reafirma a máxima, explicando que a vida é um caminho, um percurso a ser percorrido, ou uma estrada que começa virgem e que é preenchida com novos conhecimentos. Os platônicos, contudo, discordam da idéia por entender que o homem traz de berço o conhecimento, que é retomado à medida que os instintos são dominados no convívio social.

Como ser social, as idéias, crenças, valores, símbolos e sentimentos não nascem com o homem, mas pelo convívio humano, lendo, assimilando e desenvolvendo o intelecto com idéias, valores e sentimentos, à medida de sua integração à sociedade. Nesse processo contínuo de adaptação, o homem assume os padrões de conduta legados por seus antepassados através da constante socialização.

Como ser inteligível, o homem busca compreender o universo que o cerca desde os primórdios de sua existência na Terra. Procura um sentido de vida capaz de responder às expectativas humanas para harmonizar a sua convivência social. Essa busca frenética fez com que as sociedades primitivas que não conseguiam explicar os fenômenos da natureza, através da ciência, criassem lendas e mitos para dar sentido às coisas do mundo e gerar, ao mesmo tempo, mecanismos de controle social com um conjunto de sanções positivas e negativas para assegurar a sintonia das condutas aos modelos estabelecidos por uma determinada sociedade. Dessa forma, as lendas ou mitos, muitas vezes, determinam o comportamento coletivo em face aos componentes agregados que se configuram na multidão, cuja ação mutuamente orientada, distingue-se, por envolver significados, expectativas e objetivos comuns.

O sociólogo Émile Durkheim enfatiza que a soma das crenças e sentimentos comuns formam uma consciência coletiva que cria um sistema autônomo que persiste ao tempo e une gerações. Para garantir a manutenção da sociedade é necessário a construção de mecanismos de controle individual, definido por um conjunto de normas e sanções sociais (usos, costumes, leis e instituições) que possam socializar as pessoas e manter a estrutura da sociedade através de modelos de comportamentos, valores e interesses coletivos.

Os usos, os costumes e a opinião pública são considerados mecanismos de controle social informal, enquanto a Lei é um controle formal por excelência. Os mitos e as lendas enquadram-se no primeiro grupo. Define-se como lendas aquelas histórias transmitidas oralmente através dos tempos, misturando fatos reais com fantasias, para explicar os acontecimentos misteriosos, sobrenaturais ou os além da compreensão reinante; enquanto os mitos são narrativas com fortes componentes simbólicos, que servem, inclusive, para repassar conhecimentos e alertar as pessoas sobre perigos, defeitos e qualidades materiais ou humanas. Até as religiões se valem de metáforas, símbolos e figuras lendárias para ajudar a compreensão de muitos de seus axiomas divinos, como, por exemplo, Adão, Eva, Caim, Abel, Noé e alguns outros símbolos bíblicos.

Sem entrar no mérito dos princípios dogmáticos, lembramos que no quebra-cabeça doutrinário, o profano e o divino dividem a verdade de acordo com conveniência de cada religião. São mais de seis bilhões de pessoas somados entre cristãos, judeus, islâmicos, hindus, budistas, esotéricos, pagãos e tantas outras religiões, seitas e movimentos espiritual-filosóficos. Todos garantem dizer a verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade em suas doutrinas. Juram que todos os dogmas, normas, usos e costumes que defendem são de origem e inspiração divinas. Grandes legisladores e profetas todas tiveram. Até mesmo as etnias pagãs da Amazônia Ocidental foram normatizados por um emissário celestial, o Jurupari, uma espécie de Moisés indígena, que estabeleceu o sistema patriarcal na região e instituiu normas e sanções de controle social e convivência ambiental entre os diversos índios amazônicos, o que lhe valeu, mais tarde, a ser considerado um ser demoníaco pelos catequistas. Quantas pessoas ou etnias foram trucidadas em nome de Deus, de Jesus, Alá, Jeová ou de até mesmo de entidades inferiores e profetas pagãos? Lembrem-se da Inquisição, do conflito judeu-árabe e de tantos outros genocídios que ainda continua sendo praticado em nome de divindades e religiões.

Mula-sem-cabeça – A par das verdades teológicas, tidas como dogmas doutrinários, as lendas e mitos são meias-verdades com fortes simbolismos que procuram explicar o desconhecido, passar conhecimentos empíricos e gerar normas de conduta capazes de evitar ou alertar as pessoas dos perigos de seus próprios instintos e vícios sociais. Longe de ser uma simples fábula, um entretenimento, o lendário mantém modelos de comportamentos, valores e interesses grupais que extrapolam a ficção. O Boto sedutor foi aceito para evitar conflitos provocados pela gravidez indesejada, entre pais e maridos enganados e casais amantes. O abandono do lar é suportado sob o pretexto da sedução da Iara, que atrai os homens para as encantarias do fundo do rio. O Curupira disciplina o caçador e impõe o respeito à natureza. A Mula-sem-cabeça também possui fortes componentes simbólicos, pois alerta para os pecados humanos que devem ser repudiados e evitados, como a relação sexual entre a mulher e membros do clero. A lenda diz que o ser maligno é uma mulher que se apaixona pelo padre e sai a galope nas madrugadas de quinta para sexta-feira, percorrendo sete povoados e soltando fogo das ventas, relinchando, apesar de não ter cabeça, atacando tudo que está na sua frente, quer seja homem ou animal.

Seu encanto somente será quebrado se alguém conseguir tirar o freio de ferro que ela carrega na boca ou quando um padre amaldiçoa a mula antes de rezar a missa. Dizem ainda, que, ao passar o efeito do feitiço, ela volta à forma humana, toda pelada e arranhada, porque corre muito e se bate nas árvores e cercas.
Não se sabe ao certo quando a lenda surgiu ou quando apareceu o primeiro caso, mas os pesquisadores opinam que a história reflete uma maneira de pensar, comportar-se e agir em relação à Igreja Católica, uma vez que a criatura maligna é fruto de um grave pecado (aos olhos da igreja), cujo resultado acontecia com todas as mulheres que fornicassem com um padre.

Na verdade, a história tem cunho moral religioso e é tida como uma sutil sanção ao envolvimento amoroso com sacerdotes e também com compadres, tidos como pessoas da família, ou qualquer tipo de relação considerada incestuosa. Segundo estudos, a fábula procura alertar as mulheres que freqüentavam igrejas para nunca verem o padre como um homem, mas como fiel representante de Cristo na Terra, uma “criatura especial”, quase um santo. A maldição por essa relação imoral tem origem a dois fatores sociológicos: a intimidade e confiança que o clero goza com os fiéis e a predominância feminina na Igreja, funcionando como norma de conduta.
Na verdade, a Mula-sem-cabeça é um mito que remonta ao Brasil colônia e que varia de região para região, principalmente em Goiás e Mato Grosso, de acordo com o dinamismo inerente ao folclore brasileiro, sendo também chamada Mulher-de-padre, Mula-de-padre, Mula-preta, Burrinha-do-padre, Burrinha, Cavalo-sem-cabeça, Padre-sem-cabeça, etc.

Apesar da popularidade, a lenda não é exclusiva do Brasil, com muitas versões semelhantes em países de origem hispânica.
Provavelmente, a lenda da Mula-sem-cabeça tem origem nos povos da Península Ibérica, por volta do século XII, época em que os padres se transportavam em mulas pela Europa. Ela chegou às Américas através dos colonizadores espanhóis e portugueses, a partir de 1492. A mesma história também faz parte do folclore mexicano (com o nome Malora) e argentino (chamada Mula-anima). Presupõem-se que a lenda tenha se disseminado no Brasil pela região canavieira do Nordeste e por todo o interior do Sudeste.
Há quem diga que a Mula-sem-cabeça representa uma espécie de mulher-lobisomem que assombra os povoados que rodeiam uma igreja. De acordo com a região, varia a forma de quebrar a maldição da Mula, como, por exemplo: fazer nela um leve ferimento com um alfinete ou algum outro objeto, para que sangre, a fim de quebrar o encanto e a fera voltar a ser mulher, que aparece completamente nua. Em Santa Catarina, lança-se ao fogo um ovo enrolado em fita com o nome de uma mulher, e se o ovo cozer e a fita não queimar ela é amante de um padre.

Muitas vezes é o próprio padre que é amaldiçoado e vira um Padre-sem-cabeça, saindo assustando as pessoas a pé ou montado em um cavalo encantado, variação que lembra a lenda norte-americana do Cavaleiro-sem-cabeça. A Mula também pode ser um animal negro com a marca de uma cruz branca gravada no couro, podendo ter ou não cabeça, desde que relacionado a um padre, a uma amante ou ao próprio sacerdote em casos especiais. As aparições quase sempre acontecem em noites escuras, mas podem acontecer preferencialmente nas luas-cheias. E se alguém passar diante de uma cruz à meia-noite, o bicho também aparece, principalmente numa encruzilhada, onde se transforma na besta.

Apesar do nome, a Mula-sem-cabeça, na verdade, de acordo com os relatos de quem já a viu, aparece como um animal inteiro, forte, lançando fogo pelas narinas e boca, onde tem freios de ferro. Nas noites em que ela sai, ouve-se seu galope acompanhado de longos relinchos, mas parece também chorar como se fosse uma criança. Ao ver a Mula, a pessoa deve se deitar de bruços no chão e esconder unhas e dentes para não ser atacado.

As pessoas que juram ter visto o animal amaldiçoado o apresentam com as seguintes  características: é uma mula de cor marrom ou preta; tem no lugar da cabeça apenas fogo; possui ferraduras que podem ser de aço ou prata em seus cascos; seu relincho tem som muito alto que pode ser ouvido longe, parecendo também com um gemido humano.

Oriunda do lado sombrio do inconsciente coletivo, a Mula-sem-cabeça pode ser considerada o próprio arquetípico sombrio dos instintos, desfilando ao lado do lobo, sob a influência do moralismo cristão, tendência que esteve presente na caça às bruxas da Inquisição. O animal representa nesta lenda uma das obras-primas do zoomorfismo, fazendo alusão negativa às forças das profundezas do ser humano, colocando a libido em primeiro lugar, fato que desde a Idade Média tem a sua significação sexual identificada principalmente com o cavalo, no caso da lenda em pauta, com a mula. O fato do animal não possuir cabeça pode ser entendido no sentido metafórico, como sem juízo, sem consciência ou despossuído de razão, próprio das paixões e impulsos sexuais incontroláveis.

A lenda da Mula-sem-cabeça faz repensar que o homem deve se integrar com seus instintos, pois o animal que ele possui em sua psiquê, pode tornar-se perigoso quando não dominado e integrado à vida do indivíduo, pois o acolhimento da alma animal torna-se necessário para a plenitude humana, com profundo eco simbólico em sua natureza. Para Luís da Câmara Cascudo, contudo, o simbolismo da lenda representa principalmente a punição recebida pela manceba do padre, que Viriato Corrêa chama de Cavalacanga.

 

 




     
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