Domingo, 05 de Setembro de 2010
Lendas
O Mito da criação do homem - Ed. 83

Muitos filósofos, teólogos, cientistas e pesquisadores têm se ocupado em estudos sobre a origem do homem. A explicação religiosa dos judeus e cristãos diz que a humanidade veio de Adão e Eva, criados, segundo a Bíblia (Gênesis), à semelhança de Deus. Charles Robert Darwin (1809-1882) defendeu a teoria de que o ser humano descende do macaco.
Recentes descobertas arqueológicas revelam ossadas humanas com idade avaliada em 2,8 milhões de anos que praticamente não se diferenciam dos esqueletos dos homens modernos. A explicação científica da evolução do homem afirma que ele surgiu do hominídeo Homo habilis e não diretamente dos macacos.
O processo de humanização para o Homo sapiens sapiens foi lento e demorou milhões de anos.
Segundo o espiritismo, a teoria darwiniana da evolução das espécies não é impossível e nem o fato do homem descender do macaco afeta a dignidade humana. Explica Allan Kardec, tido como o codificador da doutrina espírita, que os “corpos de macacos podem ter servido de vestidura dos primeiros espíritos humanos que vieram encarnar na Terra, sendo essa vestidura mais apropriada às suas necessidades e mais adequada ao exercício de suas faculdades do que o corpo de qualquer outro animal”.
Já o cristianismo diz que a teoria da seleção natural das espécies é contrária à Bíblia Sagrada, pois incorpora o pensamento panteísta, que é a negação do deus único, criador de todas as coisas. O livro de Gênesis, o primeiro da Bíblia, revela ainda que Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, concedendo-lhe o domínio sobre os animais e sobre toda a terra. “Formou o Senhor Deus ao homem do pó da terra, e lhe soprou nas narinas o fôlego de vida, e o homem se tornou alma vivente” (Gênesis 2:7).

 

Desenvolveram-se ao longo da história diferentes concepções míticas, religiosas, filosóficas e científicas em relação ao homem, cada uma com sua própria explicação sobre a origem, trascendência e sentido da vida. As religiões possuem grandes narrativas que explicam o começo do mundo ou que legitimam a sua existência. Quanto à legitimação de um sistema religioso, este costuma apelar a uma revelação ou à obtenção de uma sabedoria por parte de um fundador, como sucede no budismo, onde o Buda alcançou a iluminação enquanto meditava debaixo de uma figueira, ou no Islã, em que Maomé recebeu a revelação do Alcorão de Alá.

A antropogênese já formulou várias teorias para tentar explicar a origem do homem, tanto no contexto científico quanto no religioso e mitológico. As primeiras tentativas de explicar a origem do homem foram os mitos. A mitologia grega diz que Epimeteu teve a tarefa de criar os homens, mas os fez do barro, imperfeitos e sem vida, o que levou o seu irmão Prometeu a roubar o fogo de Vulcano para que desse vida aos homens.
Os acádios afirmavam que Adapa foi o primeiro homem, o filho do deus Ea que perdeu a imortalidade. Um antigo mito mesopotâmico afirma que o homem cresceu da terra como uma planta. Mas a ciência atual defende a teoria da evolução, na qual o ser humano tem um ancestral comum com os primatas superiores, que se adaptou ao bipedismo e desenvolveu uma capacidade cerebral mais complexa.

A doutrina judáica-cristã garante que o primeiro homem, Adão, foi feito de barro e que este pecou comendo o fruto da árvore proibida, sendo por isso expulso do paraíso. A Bíblia também cita nominalmente a composição da árvore genealógica da humanidade, iniciando a vida terrena do homem a partir de Adão e Eva, narrativa que muitos teólogos consideram alegórica, abandonando o seu sentido literal, idéia que foi admitida pelo papa João Paulo II. Esses teólogos expressam compatibilidade entre a evolução e a fé católica. Os fundamentalistas cristãos, contudo, discordam do papa católico e crêem na interpretação literal do livro de Gênesis.

A teosofia, filosofia esotérica criada por Helena Petrovna Blavatsky, prega a origem poligenética e astral do homem, conceito influenciado pela filosofia oriental, particularmente o hinduísmo e o budismo. Blavatsky garante que a origem e a evolução do homem estão descritas em pergaminhos muito antigos chamados Estâncias de Dzyan e que o homem surgiu na Terra há 18 milhões de anos, a partir de seu molde astral, formando a raça que ela chama de atlante. Para ela, os primatas superiores são antigas raças humanas que se degeneraram, o que explica as semelhanças fisiológicas entre ambos. Blavatsky não nega a teoria da evolução, porém acredita que a criação do homem foi guiada pelas hierarquias divinas.

O estudo da evolução humana engloba muitas áreas da ciência, como a psicologia evolucionista, a biologia evolutiva, a genética e a antropologia física, cujo termo humano refere-se ao gênero Homo, no contexto da evolução humana, que estudos recentes incluem usualmente outros hominídeos, como os autralopithecus, vistos agora como os ancestrais imediatos do gênero Homo, a cujo grupo os homens modernos pertencem.
O histórico da paleoantropologia começou com o descobrimento do Homem de Neandertal e de evidências de outros homens das cavernas no século XIX. Mas a idéia de evolução biológica das espécies em geral só foi legitimada após a publicação de A Origem das Espécies por Charles Darwin, em 1859, teoria considerada na época bastante controversa até por muitos de seus apoiadores originais, como Alfred Russel Wallace e Charles Lyell, que rejeitaram a idéia de que os seres humanos poderiam ter evoluído sua capacidade mental e senso moral pela seleção natural.

Desde o tempo do botânico e zoólogo Carolus Linnaeus (1707-1778), alguns grandes macacos foram classificados como sendo os animais mais próximos dos seres humanos, baseado na similaridade morfológica. Especulava-se que os parentes mais próximos dos homens eram os chipanzés e gorilas e que os fósseis de seus ancestrais estariam na África, compartilhando sua origem comum com os outros antropóides africanos.
Em 1925, Raymond Dart descreveu o Australopithecus  africanus, o Bebê de Taung, espécime descoberto na África do Sul, cujos fósseis constituíam-se de um crânio muito bem preservado e de um molde endocranial do cérebro, de formato redondo, diferentemente daqueles dos chipanzés e gorilas, sendo mais semelhante ao cérebro do homem moderno, inclusive exibindo dentes caninos pequenos e a posição do foramem magnum (grande abertura através do osso occipital na base do crânio) que evidencia a locomoção bípede. Os traços do Bebê de Taung convenceram Dart de que aquele era um ancestral humano bípede, uma forma transitória do humanóide. Tanto os Australopithecines quanto o Homo pertencem à família Hominidae, mas dados recentes revelam que o africanus pode ter sido um primo mais distante dos humanos.

A par dos avanços das ciências, a mitologia indígena há muito também procurou explicar as origens dos seus semelhantes e do mundo que os cerca. A cosmogonia dos índios macuxis, acavais, arecunas e taulipangues, no Estado de Roraima e na Venezuela, por exemplo, consagram Macunaima (Macuna’imã) como o criador de todas as coisas. “Tudo vivia em perfeita harmonia. Depois Macunaima criou a flor, quando foi a vez do fogo e do homem, que trouxe a destruição, a guerra e o desequilíbrio. A decepção de Macunaima foi tanta que resolveu dormir, transformando-se no Monte Roraima, berço, morada e agora túmulo do Grande Pai”. Macunaima é também considerado o herói do setentrião sul-americano, cujas pródigas versões levam a interpretação diversa, entre elas vivências cósmicas e aventuras terrestres, como as dos deuses da mitologia grega.

Também como um semi-deus grego, o Jurupari é tido como uma das maiores divindades da pré-história indígena e seu grande legislador, considerado mensageiro e herói-civilizador. A deidade pode ainda ser considerada uma espécie de Moisés dos índios. Seu domínio se estendia sobre a maioria das tribos amazônicas, cuja reverência chegava a dificultar a ação catequética dos jesuítas na região, ao ponto dos padres o considerarem um ser demoníaco para transmudar a boa imagem obtida pela entidade. O Jurupari implantou o sistema patriarcal na região, criou regras de convivência social, ambiental e sanitária entre os índios, ensinou artes e ofícios desconhecidos até então e fez valer a ética e o respeito humano na guerra. Ele também faz parte da gênese indígena, como agente ou coadjuvante na criação de homens, animais e coisas.

Lenda Carajá – Entre os índios brasileiros aparecem personagens e fatos lendários que muito lembram passagens bíblicas, naturalmente com figuras e situações tipicamente regionais. Sobre a criação do mundo, os carajás são unânimes em afirmar que se originaram do Furo das Pedras, um local debaixo d’água, perto do Rio Macaúba. Eles não lembram, contudo, como foram criados, mas garantem que no princípio viviam no fundo do Rio Araguaia, numa espécie de paraíso submerso chamado Beerocan, “um lugar onde todos viviam pacificamente e nada lhes faltava; havia comida em abundância e cada um tinha um prato que se enchia graças a Canansiuê, tão logo era esvaziado; nunca se adoecia e tampouco ninguém morria. Era somente nascer, crescer e se reproduzir. Canansiuê era invisível mas estava sempre presente através da sua generosidade; era o pai de todos os inans e em face da sua bondade e magnanimidade seria naturalmente muito difícil para qualquer um contrariá-lo”, conta a lenda indígena.   

Como Adão e Eva, eles também foram tentados, desobedeceram e perderam o paraíso que viviam, não por causa do fruto proibido (pecado original), mas devido à curiosidade incontida da natureza humana. O desejo de conhecer o mundo além do rio foi crescendo entre os carajás, cujas histórias fantásticas ouviam desde a infância, sobre os tipos diferentes de animais e vegetais além do seu conhecimento, que havia lá fora.
Os mais velhos tentaram dissuadir os jovens, usando de todos os argumentos lógicos e racionais. Para que sair? Não tinham tudo o que queriam no fundo do rio? Canansiuê não era amigo de todos? O que lhes faltava? No fundo do rio ninguém sabia a idade de ninguém; para que saber? Não havia porque se preocupar com um tempo que ainda não fora inventado. Porém nem todos desistiram. Nada dissuadia Caboí, um dos jovens mais entusiasmados com a aventura, que não mediu esforços para arranjar companheiros para a empreitada. Caboí conseguiu enfim seduzir um amigo, U-o-ubêdo, apesar das notícias sobre os que antes haviam tentado sair e nunca mais se soube nada a respeito deles.

– E se nós morrermos? Perguntou-lhe o amigo. Morrer?  Indagou Caboí, como é morrer? Você não está cansado desta vida, de nunca morrer?
Decidiram então procurar a saída do rio e, depois de muito procurar, encontraram-na exatamente no lugar onde este era mais fundo e mais escuro. Caboí subiu, pôs a cabeça para fora, olhou em redor e viu as margens do rio com árvores de diversos tamanhos e formas; procurou outros sinais de vida em redor, mas não os encontrou. O que teria acontecido? Pensou. Será que Canansiuê, para demovê-lo dos seus intentos, tinha ordenado aos animais que fugissem e não aparecessem diante dos seus olhos? Caboí ficou intrigado com aquela ausência. Apesar disso, saiu com alguma dificuldade porque tinha a barriga muito grande e teve que ser ajudado pelo amigo U-o-ubêdo. Este, mais magro, ou melhor, menos gordo do que o seu companheiro, conseguiu atravessar pelo buraco de acesso à superfície sem maiores dificuldades. Nadou até a margem e caminhou a pé, vendo deslumbrado como era tudo bem diferente do fundo do rio. Mas também não viu os animais. Mais tarde, depois de caminhar muito, sentiu fome; encontrou um prato cheio de comida ao seu lado, igual ao que sempre acontecia no fundo do rio. Continuou sua exploração pelo mundo novo e desconhecido. Cada lugar, cada detalhe, cada árvore era um estímulo completamente inusitado.

U-o-ubêdo voltou a sentir fome pela segunda vez, mas inexplicavelmente não encontrou o prato de comida, como de hábito. Estranho aquele fenômeno e, como a fome aumentasse, decidiu voltar para o lugar de onde saíra. Voltou e encontrou o seu amigo Caboí ainda à sua espera. Contou para o amigo tudo quanto vira. Relatou-lhe o não aparecimento da comida quando voltara a ter fome pela segunda vez. Disse ao amigo que estava com muita fome e que esta era uma sensação terrível e desconhecida; ele não sabia que era assim, tão ruim. Arrependido quis retornar, mas ao tentar passar as pernas pelo buraco não conseguia atravessá-lo, o que era muito estranho e deixou os dois amigos aturdidos. Como era possível, se o buraco ainda permanecia aberto?

Compreenderam que era uma situação sem retorno. E agora, o que fazer? Caboí decidiu voltar para o fundo do rio para trazer comida para o seu amigo e conversar novamente com os mais velhos para ouvir o conselho deles. Queria também que eles interferissem junto ao seu deus pedindo ajuda. Assim o fez e, durante algum tempo alimentou o companheiro passando a comida através do orifício do rio. Caboí falou a todos o que U-o-ubêdo contara. Se por um lado não demovia a idéia dos mais velhos, foi introduzindo no espírito dos mais moços a centelha da curiosidade que alimentava o desejo de sair e provar uma outra existência. Aos poucos conseguiu convencer um grupo de pessoas, dispostas a seguir os dois aventureiros. Perdeu uma boa parte da barriga, deixando de comer por vários dias.

Canansiuê de fato estava magoado e foi necessário a intervenção e o empenho dos mais velhos para aplacar o deus carajá que, muito a contragosto, resolveu consentir que a tribo seguissem Caboí e U-o-ubêdo para  fora de seu hábitat original. Mesmo assim, Canansiuê os advertiu dizendo-lhes que fora das águas não tinha poderes tão grandes e que seria necessário pedir ajuda de mais alguém. Assim os carajás saíram do paraíso aquático, onde viviam submersos, para viver nas margens do Rio Araguaia (o seu Beerocan), caminhando para as barrancas mais altas e formando as aldeias que, com o passar do tempo se tornaram numerosas.

Fora do fundo do rio a vida era muito difícil, pois tudo dependia das pessoas e não havia mais um deus magnânimo para ajudar e resolver todos os problemas. Tinham que aprender tudo; desde conseguir o alimento, saber o que podiam ou não comer, o que era bom ou não. Assim conta uma das lendas dos índios carajás que se incorporam a outras sobre a origem do homem.


  



 


     
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