|
Quem adentrar a floresta setentrional da Amazônia durante o período chuvoso, poderá encontrar um belo sapinho preto, azul e amarelo que muitos denominam sapo-garimpeiro (Dendrobates tinctorius). Esta espécie de batráquio faz parte de um grupo de anfíbios anuros (formado por sapos, rãs e pererecas) e é famosa pela coloração de sua pele e por possuir (alguns deles) poderoso veneno, sendo bastante tóxicos aos animais e ao homem, ao ponto de matá-los em pouco tempo com apenas poucos gramas de veneno, como é o caso do Phyllobates terribilis, espécie existente na Colômbia.
Apesar da sua beleza e alta periculosidade, o sapo-garimpeiro é pouco conhecido dos brasileiros, que só passaram a tomar conta dele pela repercussão nacional do famoso “Caso Augusto Ruschi”, que envolveu até práticas de pajelanças e morte deste importante zoólogo. Algumas pessoas ainda lembram, que na pior fase de sua enfermidade, o cientista foi submetido a um ritual indígena conduzido pelo Cacique Raoni, sob a suspeita de que Ruschi teria um sapo na barriga.
Foi diagnosticado, porém, que o pesquisador teria adoecido vitimado pelo veneno do sapo-garimpeiro, com o qual teve contato em suas idas à Serra do Navio, no Amapá. O fato, da maneira que foi veiculado pela mídia, causou um impacto muito grande nas pessoas menos esclarecidas e gerou diversos protestos de biólogos e naturalistas a favor dos sapinhos. Em algumas cidades, os sapos de qualquer espécie foram massacrados sem dó nem piedade devido ao medo das pessoas.
Augusto Ruschi (1915-1986) era cientista, agrônomo, ecologista e naturalista do Museu Nacional do Rio de Janeiro, além de ser diretor do Museu de Biologia Professor Melo Leitão, em Santa Tereza, no Rio de Janeiro. Foi um trabalhador incansável em prol da História Natural, pois dedicou sua vida aos beija-flores, morcegos e outros animais. Mesmo com o fígado destruído por causa de dez malárias e uma esquistossomose, o pesquisador não mudou seu ritmo de trabalho. Faleceu em outubro de 1986, em Vitória, no Espírito Santo, vitimado por uma insuficiência hepática que o acompanhava há anos.
A persistente cantoria amorosa (tu-ti-ti, tu-ti-ti,tu-ti-ti) de outro sapinho, o Epipedobates femoralis, parente do garimpeiro, tenta ardentemente atrair uma parceira para a faina reprodutiva destes pequenos animais pertencentes à família dos Dendrobatídeos. O ritual denuncia a presença deste minúsculo animal, espécie que habita as florestas tropicais úmidas da Nicarágua, Costa Rica, Panamá, Colômbia, Equador, Peru, Bolívia, Venezuela, Guiana, Suriname, Guiana Francesa e norte da Amazônia brasileira.
Segundo o médico e ex-titular do Meio Ambiente da Icomi (Amapá), Paulo Roberto de Amorim, as espécies de sapo distribuem-se pelos gêneros Colostethus, Dendrobates, Phyllobates, Epipedobates (Myers-1987), Photobates (Zimmerman e Zimmerman 1988). Todos essas nomes científicos são devidos aos hábitos e toxinas produzidas pela pele destes animais. Os Dendrobatídeos provavelmente se originaram na América do Sul, no Período Eoceno (entre 40 a 60 milhões de anos), conforme sugere sua distribuição atual. Neste período, a América Central era separada da América do Sul pelo mar. Essas espécies entraram na América Central no Plioceno (entre 1 a 10 milhões de anos), logo depois do estabelecimento do istmo.
A distribuição atual das espécies dendrobatídeas que habitam terras baixas limita-se principalmente pelas chuvas e formações vegetais e correlaciona-se com os refúgios úmidos interglaciais do Pleitesceno da hipótese de Jürgen Haffer, geofísico e ornitólogo alemão, que, em 1969, expôs pela primeira vez sua teoria dos refúgios, onde explicou que após às alterações climáticas (períodos glaciais e interglaciais) seguem-se mudanças de vegetação, causando a fragmentação de áreas de distribuição das espécies e o isolamento de porções de uma determinada biota em refúgios ecológicos. Nesses refúgios, as populações sobrevivem sem mudanças, diferenciando-se em espécies e subespécies ou entram em extinção. A teoria de Haffer é baseada na concordância de fontes independentes originárias das geociências (paleobotânica), geologia (geomorfologia) e de estudos biogeográficos (analíticos dos modernos padrões de distribuição de plantas e animais).
Das espécies do gênero Dendrobates, quatro provavelmente originaram-se na América Central e a maioria na América do Sul. Os Dendrobates alimentam-se principalmente de formigas, porém não dispensam outros minúsculos animais da floresta. Os sapos-garimpeiros e seus parentes são muito agressivos entre si, provavelmente na defesa de seus territórios. As fêmeas depositam os ovos no solo ou sobre a vegetação. Algumas espécies acompanham a evolução dos ovos. Quando nascem os filhotes, carregam-nos sobre o dorso, aos poucos, um atrás do outro, colocando-os em pequenos reservatórios de água, como por exemplo nas bromélias, onde completam o seu desenvolvimento.
Os Dendrobatídeos possuem hábitos diurnos. Raramente entram em riachos, mas podem ser vistos em pequenos poços de água. São encontrados na florestas tanto no nível do mar como naquelas a mais de dois mil metros de altitude. A sobrevivência desses sapinhos está intimamente relacionada com a abundância das chuvas e umidade, bem como a pujança das florestas tropicais. Fatores como a baixa precipitação das chuvas e destruição das florestas pelo homem são limitantes para a vida dos Dendrobatídeos.
Algumas tribos indígenas utilizam-se de uma substância produzida pela pele de algumas espécies de sapo como veneno para as pontas de suas flechas. Por este fato são denominadas em inglês de poison arrow frogs. Em 1969, três pesquisadores, Tokuyama, Daly e Witkop, injetaram tal toxina experimentalmente em aves e alguns mamíferos e observaram tais animais morreram.
A etnozoologia do sapo-garimpeiro apresenta fatos curiosos como na tapiragem e no aperfeiçoamento dos cães de caça. A tapiragem é uma atividade em que alguns grupos indígenas da Amazônia mudam a cor das penas de papagaios. Segundo alguns autores, os índios removem algumas das penas verdes de jovens papagaios e esfregam na pele exposta o sangue ou veneno da pele do sapo-garimpeiro. As penas novas crescem com cores totalmente diferentes, vermelhas ou amarelas. Alguns pesquisadores tentaram repetir as técnicas, sem resultados positivos.
As histórias sobre os cães de caça também são interessantes. Afirma-se que, no Platô das Guianas, exemplares azuis do sapo-garimpeiro são usados pelos índios uai-uais para melhorar o faro e tornar mais ativos os cães, friccionando os sapos no focinho do animal.
Existem, ainda, notícias mais alvissareiras sobre o ilustre sapinho: cientistas alemães estão pesquisando as substâncias alcalóides produzidas na pele desses animais que são agentes capazes de combater fungos causadores de doenças. Em 1992, pesquisadores norte-americanos do National Institute of Health e National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases, publicaram no Journal of the America Chemical Society os resultados sobre estudos de uma substância isolada da pele de um dendrobatídeo (Epipedobates tricolor), a epibatidina, que se revelou um potente analgésico não-opóide, que poderá socorrer o homem em seus sofrimentos e não matá-lo com o veneno do sapo, como aconteceu com o cientista Augusto Ruschi.
|