Paulo Chaves Fernandes, arquiteto e urbanista paraense, estreouprofissionalmente com projetos em Belém, como o da sede do Tribunal de Contas do Estado. Fez curso de cinema e mestrado em comunicação social na UFRJ e voltou à capital paraense onde se engajou até hoje como professor da área, na Universidade Federal do Pará, que então iniciava o curso de comunicação social. Em 1983, foi assessor de urbanismo na gestão de Almir Gabriel na prefeitura de Belém, promovendo as reformas do Ver-o-Peso, mercado de São Brás e outras. Ficou na prefeitura até 1988. Em seguida, no governo Collor, foi superintendente do Instituto de Patrimônio Histórico Nacional, deixando o cargo para ser secretário de Cultura do Pará, quando Almir Gabriel foi eleito governador, em 1994, função que ocupou durante 10 anos e realizou importantes obras como o Projeto Feliz Lusitânia, Museu de Artes Sacras, Estação das Docas, Parque da Residência, Mangal das Garças, Pólo Joalheiro, Teatro da Paz, além do Quartel de Óbidos e tantas outras que inseriram o Estado do Pará no roteiro turístico-histórico e cultural brasileiro.
Amazon View – Como se comportou a equipe técnica da Secult, enquanto aguardava a crise passar e ser restabelecido o equilíbrio no órgão público?
Arquiteto Paulo Chaves – Ninguém ficou de braços cruzados. Passamos a analisar, discutir e a elaborar projetos e a definir planos que seriam priorizados de forma a resgatar a importância histórica de pontos de referência na capital paraense e, também, em alguns outros municípios. E nada melhor, depois que as dificuldades passaram, do que começar a significativa mudança a partir da área onde nasceu Belém, que considero o “útero” da capital paraense. Outra meta era restabelecer a conversa da população da cidade com as águas.
Amazon View – O que envolve o complexo arquitetônico Feliz Lusitânia, considerada a maior obra de sua administração à frente da secretaria executiva da Cultura no Pará?
Arquiteto Paulo Chaves – Engloba o Forte do Castelo, as igrejas da Sé e de Santo Alexandre, o Palácio Episcopal e a Ladeira do Castelo, antiga Rua do Seminário, localizados no sítio mais antigo da capital paraense. Foi este o alvo dessa empreitada, assim como as áreas do entorno, onde foi instalado o Museu do Círio, por exemplo.
Sempre ouvia, desde o meu tempo de estudante de Arquitetura, que Belém precisava ter o seu Museu de Arte Sacra, pois necessitava recuparar suas imagens religiosas de valor. Precisávamos valorizar este importante ponto na cultura do núcleo populacional paraense e fazer um meticuloso trabalho, resgatando uma bela parte da história de Belém. A denominação dos colonizadores portugueses para o núcleo inicial da cidade foi o nome escolhido para o projeto de recuperação e reativação desta área, reincorporando-a, como espaço cultural e de lazer, à vida urbana.
Amazon View – Como se processou a restauração do complexo arquitetônico Feliz Lusitânia e em que ordem cronológica?
Arquiteto Paulo Chaves – A primeira etapa do projeto iniciou com a Igreja de Santo Alexandre e do Palácio Episcopal, onde funciona o Museu de Artes Sacras do Pará. Depois de um sério e minucioso trabalho de restauro, que exigiu a realização de várias prospecções e pesquisas para a recomposição das feições originais, descaracterizadas ao longo de inúmeras reformas, o conjunto foi entregue à população em setembro de 1998.
Para a segunda etapa do projeto, foi necessária a desapropriação dos imóveis localizados na Ladeira do Castelo, que desce ao lado do Forte do Presépio, unindo as praças da Sé e do Açaí.
O complexo cultural Feliz Lusitânia abrange a região portuária de Belém por onde os portugueses chegaram à Região Norte, em 1616. As construções que nela foram feitas durante o período colonial atualmente abrigam museus, restaurantes e oferecem diversas oportunidades de se conhecer a realidade amazônica. O complexo constitui-se de três prédios. A Igreja de Santo Alexandre, construção que na Belém colonial também abrigava os padres jesuítas, tornou-se um espaço onde convivem belos jardins externos, a igreja (que foi totalmente reformada e também é espaço para espetáculos teatrais e recitais) e o Museu de Artes Sacras, repleto de estátuas e artefatos religiosos que retratam a história colonial.
Amazon View – Qual a importância do Forte do Presépio dentro do contexto do projeto Feliz Lusitânia?
Arquiteto Paulo Chaves – O Forte do Presépio, uma das primeiras construções de caráter militar da Amazônia e uma das primeiras obras de Belém, foi reformado e, atualmente, tornou-se um ponto panorâmico para a Baía de Guajará e para o Mercado do Ver-o-peso, além de conter o Museu do Encontro, que exibe artefatos e pinturas das comunidades indígenas e dos colonizadores portugueses da época. O Feliz Lusitânia inclui, ainda, a Casa das Onze Janelas, um antigo hospital colonial que, atualmente, abriga um espaço para exposições, o Boteco das Onze (restaurante) e uma longa passarela externa, paralela à baía, que oferece uma estonteante visão e um quiosque de lanches regionais.
Amazon View – O Feliz Lusitânia envolve obras centradas no século XVII e XVIII, porque, então, na orla de Belém, o foco do trabalho passou para o século XX, numa área até então decadente como a dos armazéns das Docas do Pará?
Arquiteto Paulo Chaves – Por se tratar de uma estrutura de ferro, remanescente do início do século XX, trazida pelos ingleses, os armazéns 1, 2 e 3 da Companhia das Docas do Pará receberam um tratamento especial e, a partir da criatividade da equipe responsável pelo projeto, tornaram-se um dos pontos de referência de atrações turística reconhecido no Brasil.
Amazon View – O que o levou a investir no Pólo Joalheiro do Pará ?
Arquiteto Paulo Chaves – O Pólo Joalheiro, no São José Liberto, era o antigo presídio, um lugar de sofrimento, de pena, que foi transformado num lugar de informação, de cultura, de alegria, de arte. É um pólo cultural e artístico, portanto, muito importante na vida da cidade e um ponto turístico também. Há, ainda, mais adiante, o Mangal das Garças, uma área também abandonada que pertencia à Marinha. Aliás, quase todas essas áreas foram adquiridas. O Forte do Castelo foi comprado do Exército, a Casa das Onze Janelas também. Aquele casario da Padre Champanhat foi comprado da Igreja Católica. O Mangal das Garças era área alagada que foi comprada da Marinha. Tivemos que aterrá-la e transformá-la num parque temático, hoje de referência nacional, inclusive com criatório de borboletas e de alguns pássaros, como as aves pernaltas, fora do cativeiro. Lá está também o restaurante de referência de Belém, o pólo gastronômico Manjar das Garças e aquele galpãozinho, que era um antigo galpão da Enasa, que nós trouxemos como ferro velho, hoje um local onde se vende artesanato.
Amazon View – Saindo desta área, o que foi feito pela sua gestão em outros setores culturais?
Arquiteto Paulo Chaves – Passamos por tudo. Isto eu tenho um orgulho danado porque o nosso critério sempre foi muito caprichado, tanto nas capas de CDs, nos encartes e textos que publicamos, nas apresentações das letras das músicas e na qualidade das gravações. Tudo em altíssimo nível, sempre com a preocupação de fazer o melhor em respeito à população e ao dinheiro público. Em relação à ópera, restituimos ao Teatro da Paz aquilo para o qual foi construído: grandes espetáculos de ópera e de balé. As intervenções que foram feitas ali, com exceção da restauração mandada por Augusto Montenegro, foram desastrosas, descaracterizaram e prejudicaram o funcionamento do teatro. Então, tivemos chance de fazer uma restauração meticulosa, criteriosa, e mais do que isso, voltar ao teatro os festivais de ópera. Fizemos um teatro-modelo, não só a restauração de suas obras de arte, de sua estrutura arquitetônica, mas também dotando-o com o que de melhor havia em equipamento cênico no Brasil. O teatro ficou em condições de funcionar com os melhores espetáculos, sem nenhum problema. Além do festival de ópera, tive a chance de fazer as dez feiras do livro, desde a primeira.
Amazon View – Belém é uma metrópole que ainda carece de espaço para realização de grandes eventos. O que foi feito em sua gestão para esta área?
Arquiteto Paulo Chaves – Belém se ressentia muito da falta de um centro de convenção, razão pela qual tive a chance de projetar e construir o Hangar, que hoje é considerado um dos melhores centros de convenções do Brasil e um lugar de referência nacional também. E está aí, funcionando. Não inauguramos porque faltavam alguns detalhes técnicos. Aquilo que era uma antiga reivindicação está aí. O Pará Em Cena é um outro grande projeto voltado para a área do teatro, também da nossa secretaria. Iniciamos a restauração do Palácio Lauro Sodré e do Museu do Estado, prédio que foi projetado pelo arquiteto Antônio Landi. Enfim, repassamos recursos para muitos municípios do interior, para os seus programas culturais, entre eles Óbidos, Vigia e Cametá. Tivemos a oportunidade de fazer o Projeto Paixão do Boi em alguns municípios. A criação da Orquestra Sinfônica do Teatro da Paz foi outra realização, pois nunca tivemos uma orquestra sinfônica. Minha passagem pela secretaria foi sempre calcada em um trabalho sério, que me deixa sempre muito orgulhoso. Fiz uma política para a cidade de Belém, para o povo do Pará, para o Estado do Pará. Política cultural, com pê maiúsculo e com cê maiúsculo, e não politicagem com a cultura. Não fiz populismo, nem demagogia. Sei que muitas vezes fui mal entendido, pois existem, ainda, infelizmente algumas situações culturais e artísticas em que as pessoas ficam esperando sempre o paternalismo. Para isso criei a Lei Semear, que incentiva a cultura, que dispõe, hoje, de R$ 5 milhões por ano para a área.
– Ao fazer um retrospecto das obras executadas por sua administração à frente da Secretaria Executiva da Cultura (Secult), quais as que o senhor considera de maior importância para Belém?
Arquiteto Paulo Chaves – Ouvia e ainda ouço elogios ao trabalho de resgate e melhoria de áreas belenenses que estavam praticamente abandonadas ou mesmo nunca receberam incentivos por parte dos responsáveis pela administração pública estadual e que foram transformadas em pontos de atração turística na capital paraense por nossa equipe. Eu tive a oportunidade, e até diria o privilégio, de ser o secretário de Cultura por um longo período de 12 anos. Coincidentemente, sem querer me comparar a ele, o mesmo período que passou Antonio Lemos, na Belle Epoque, na intendência municipal de Belém.
Amazon View – Qual o balanço sintetizado do seu período de 12 anos?
Arquiteto Paulo Chaves – Vivendo dias muito difíceis, em vista de uma série de problemas administrativos que iam desde o atraso de dois meses no pagamento dos salários de servidores até a total falta de crédito junto a fornecedores. Foram momentos angustiantes, pois não havia dinheiro para nada, nem mesmo para a manutenção do simples cafezinho. Nos dois primeiros anos de minha administração, tive que dirigir meu próprio carro. Havia um certo descontentamento e desconfiança por parte dos funcionários, que somente após irem comprovando, aos poucos, a seriedade e determinação de vencer esta crise por parte da administração estadual, que se engajaram ao trabalho de reorganização e soerguimento da credibilidade do importante órgão estadual. Reconheço que foi preciso tomar algumas atitudes antipáticas, mas que se faziam extremamente necessárias para retomar as rédeas da situação e, a partir daí, iniciar a execução de uma política cultural planejada e constituída de metas a serem vencidas.
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